Fazenda Boa Esperança - Resende RJ

Artigo, publicado em 1872, no jornal Astro Rezendense em que o redator Jacome de Campos, um dos fundadores do jornal, relata sua visita a Fazenda Boa Esperança.

“A pouco mais de uma légua, a noroeste desta cidade, demora uma linda fazenda, propriedade do senhor José Moutinho de França. O visitante ao entrar na fazenda é agradavelmente surpreendido pelo terreiro, em frente a casa de vivenda, e formando um imenso quadrilátero, parte de cantaria, e todo murado de pedra, com três portões de entrada. Entrando na casa encontra-se tudo o que há de confortável para a vida e o bem estar, desde a sala de visitas até os últimos compartimentos do interior. Pelo fundo do prédio, um outro quadrilátero, formado pelas tulhas e senzalas, pode-se chamar o pátio do movimento interno. Um tanque de cantaria, sempre cheio e sempre limpo, oferece água para todos os misteres domésticos, cruzando por ali todas as aves, que é comum terem as nossas fazendas. O engenho de café recebe a água do tanque que lhe dirige rede principal, e desce a uma segunda dependência onde divide-se em dois braços, um que move a serraria e outro que faz mover o moinho de fubá. À esquerda do prédio principal estende-se a horta onde se vê o tanque de lavar o café, também de cantaria, por onde passa a água que rega essa parte da propriedade. Os cafezais sobem e descem pelos morros até quase um légua de distancia, alimentando ainda o engenho do Alambary, assentado a quatro quilômetros, com uma dependência da fazenda. Nas várzeas o canavial de que fabricam açúcar e aguardente; o arroz, o milho, o feijão, a mandioca, gado grosso e miúdo, tudo se cultiva e se reproduz tanto para os gastos da fazenda como para socorrer os pobres e desgraçados, desprotegidos da fortuna, que nunca voltaram dali com as mãos vazias...tanta é a caridade do senhor Moutinho e de sua Exma. Sra. Mariana Cândida de Meireles França. Em poucas fazendas tenho visto a água e a pedra mais bem aproveitadas; por toda a parte tanques e bacias de cantaria por onde correm as águas encachoeiradas, havendo em todas as eclusas e comportas para que possam elas afluir aos pontos onde de fazem mais necessários. O senhor Moutinho não poupa esforços e nem conhece dificuldades quando empreende um melhoramento. Agora mesmo tem ele em vista trazer água em casa, para tornar mais fácil o serviço doméstico, e em breve terá realizado seu pensamento. E o viajante passeia por diversos lugares e não sabe que, muitas vezes, a água lhe corre por debaixo dos pés por canais escondidos. Mas não é só isso que distingue a fazenda Esperança; e também o trato cavalheiroso de seus proprietários; é a maneira porque cuidam dos seus escravos, desses infelizes que quase sempre com a liberdade perdem tudo. Ali não é assim; o escravo é companheiro de labor, mas cabe-lhe também uma parte muito considerável de regalias. Vi chegar-se um a seu senhor e dizer-lhe em um dia de trabalho: "Meu senhor, ontem não pude colher todo e meu feijão que se estar quase perder”. O senhor Moutinho, sem fazer a menor observação, pois vá colher o seu feijão". Por ocasião do batizado de um filho, no dia 24 do corrente, o senhor Moutinho e sua Exma. Sra. concederam a liberdade a oito escravos. A condição imposta aos agraciados é o mais belo ensaio do trabalho livre. Outro qualquer trataria de comprar nova gente; este libera uma parte da que possui, porque a sua inteligência não se volta para o passado, olha para o futuro e espera tudo do trabalho livre.”

José Moutinho de França fundou na primeira metade do séc. XIX a Fazenda Boa Esperança, onde chegou a produzir mais de 30 mil arrobas de café por ano. No início do século XX a fazenda passou a ser conhecida como “Fazenda do Banco”, denominação muito comum a decadentes fazendas de café no final do séc. XIX, que por motivo de execução hipotecária passaram a pertencer aos “bancos”. A Fazenda fica distante 11kms do centro de Resende, e toda a área pertence a AMAN, Academia Militar das Agulhas Negras.

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