A segunda postagem de Narrativas de Viagem traz John Luccock. O comerciante inglês Luccock chegou no Brasil em meados de 1808 e permaneceu durante dez anos, realizando negócios, procurando enriquecer e observando a terra e a sociedade tão diferentes de seu país.

"No início do século XIX o lema era enriquecer. E a marca, a rusticidade. A civilidade ainda não tinha se instalado entre boa parte dos fazendeiros. Boas maneiras, nem pensar. O hábito de estar mal ou pouco vestido era generalizado até na hora das refeições: tiravam-se sapatos, meias e outras peças que o calor tornasse opressivas. A altura da mesa faz com que o prato chegue ao nível do queixo; cada qual espalha seus cotovelos ao redor e colocando o pulso junto à beirada do prato, faz com que por meio de um movimento hábil, o conteúdo todo se lhe despeje na boca. Por outros motivos além deste, não há grande limpeza nem boas maneiras durante a refeição; os pratos não são trocados, os dedos são usados com tanta frequência quanto o próprio garfo. Considera-se como prova de amizade alguém comer do prato do seu vizinho. Antes do final da refeição todos se tornam barulhentos, exagera-se a gesticulação e despedem punhados no ar, de tal maneira que um estrangeiro pasma que olhos, narizes e faces escapem ilesos. Quando deles não se tem mais necessidade, limpa-se a faca na toalha da mesa de devolve-se à bainha por detrás das costas. Tudo era guardado em baús e cestas, cômodas com gavetas era artigo raro".
Até a primeira metade do século XIX, os fazendeiros levantavam-se com as galinhas e logo tomavam o café, almoçavam as oito da manhã, e jantavam a uma da tarde. A maior parte, julgando insuficientes as três refeições, fazia outra às onze da manhã e merendava depois do banho no início da noite. Como era o banho? Tomava-se o banho de sopapo, em gamelas ou tinas, ou no melhor dos casos, em bacias de folhas-de-flandres. À noite rezavam o terço e iam para a cama.

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