Fuga de escravos em Paty do Alferes

No dia 5 de novembro de 1838, cerca de oitenta escravos da fazenda Freguesia (Atual Arcozelo), pertencente a Manuel Francisco Xavier, grande proprietário da rica região cafeicultora de Paty do Alferes, aproveitaram a calada da noite para fugir. Uma fuga que revelou uma concentração e organização entre insurretos. Mas ainda havia mais, pois na madrugada seguinte ei-los na outra fazenda do mesmo proprietário, a Maravilha, juntando também a escravaria deste estabelecimento. Os fugitivos agora eram centenas. Talvez 400. Durante dias seguiram pelas matas em direção a Serra de Santa Catarina (Vale das Videiras). Uma fuga em massa como essa, de qualquer forma, era algo incomum e assustador. No dia 8 de novembro, o juiz de paz de Paty do Alferes informava ao coronel-chefe da Guarda Nacional na região, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck (mais tarde barão de Paty do Alferes), pedindo-lhe providências, em prol “da ordem e do sossego público”. Em 48 horas Lacerda Werneck tinha mobilizado uma força de algumas centenas de homens. E lá se embrenhou ele no mato, atrás dos fugitivos. No dia 11 de novembro, às 5 da tarde nas proximidades da fazenda de Santa Catarina, narra Lacerda Werneck, num de seus memorandos, “sentimos golpes de machado e falar gente”. Tinham localizado um primeiro grupo de escravo. Estes se deram conta da presença dos perseguidores, porém. “Fizeram uma linha”, mobilizaram suas armas, “umas de fogo, outras cortantes”, e gritaram: “Atira caboclo, atira...”. Lacerda Werneck prossegue: “Este insulto foi seguido de uma descarga que matou dois dos nossos e feriu outros dois. Quão caro lhes custou! Vinte e tantos rolaram pelo morro abaixo à nossa primeira descarga, uns mortos e outros gravemente feridos, então se tornou geral o tiroteio, deram covardemente costas, largando parte das armas; foram perseguidos e espingardeados em retirada e em completa debandada...” No dia seguinte, mais fugitivos foram apanhados. Ficaram alguns grupos vagando pela floresta de Santa Catarina, de outros não mais se soube, outros ainda voltaram às fazendas. Foram presos os líderes da rebelião, inclusive Manuel Congo, acusado de ser o “rei” do eventual futuro quilombo, e Mariana Crioula a “rainha”. Causou espanto, no processo, a participação desta Mariana na rebelião, ela que era “uma crioula de estimação de dona Francisca Xavier”, isto é, uma escrava doméstica, considerada das mais dóceis e confiáveis. Lacerda Werneck contou que ela só se entregou “a cacete” e gritava: “Morrer sim, entregar não”. Foram indiciados dezesseis fugitivos no processo. Em janeiro de 1839 deu-se o julgamento. Manuel Congo foi condenado à morte, acusado de ser responsável pelas duas mortes ocorridas entre os perseguidores. Oito réus foram absolvidos. Sete foram condenados a “650 açoites a cada um, dados a cinqüenta por dia, na forma da lei”, além do que deviam andar “três anos com gonzo de ferro ao pescoço”. O susto, para a boa sociedade de Vassouras, município o qual Paty do Alferes fazia parte, tinha passado, mas fora grande. Alarmou a província e ecoou pelo Império. Um destacamento do Exército, com cinqüenta homens, chegou a ser enviado da corte a Vassouras. No comando: o tenente coronel Luís Alves de Lima e Silva, futuro duque de Caxias e patrono do Exército brasileiro. O destacamento não precisou atuar, porém. Chegou a 14 de novembro, quando o levante já fora dominado.
Texto: Roberto Pompeu de Toledo - Fonte: Revista Veja

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